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QUEIMADA
Videoperformance e instalação — corpo, fogo e memória

Registros de uma trajetória em cena, entre teatro, música, performance, personagem, palavra falada, imagem e corpo.

Cinthya Verri caracterizada como Bardot em apresentação no palco.

Frame de Queimada, videoperformance e instalação de Cinthya Verri apresentada em sala blackout na exposição Adelitas, no Memorial do Rio Grande do Sul, em diálogo com o projeto Mujeres ardientes e com a memória das soldaderas da Revolução Mexicana.

Queimada integrou a exposição Adelitas, apresentada no Memorial do Rio Grande do Sul. Instalada em uma pequena sala inteiramente blackout, a obra interrompia o percurso expositivo e conduzia o visitante a um ambiente de clausura, silêncio visual e suspensão.


No interior da sala, um vídeo era apresentado continuamente. A imagem registrava uma ação performática de Cinthya Verri em torno do corpo, da mão e do fogo. O enquadramento fechado, a granulação e a instabilidade do registro deslocavam a cena do campo documental para uma zona simbólica, em que chama, pele, luz e desaparecimento se confundiam.


Apresentada em looping, a ação não possuía princípio ou desfecho claramente reconhecíveis. O acontecimento retornava continuamente. Não havia resolução, apenas repetição. O fogo deixava de ser episódio pontual para tornar-se imagem insistente da violência, da memória e da transformação.

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VIDEOPERFORMANCE E INSTALAÇÃO


Queimada foi apresentada como videoperformance e instalação dentro da exposição Adelitas, no Memorial do Rio Grande do Sul.


A obra ocupava uma pequena sala inteiramente blackout. Esse dispositivo expositivo alterava o ritmo da exposição: o visitante deixava o espaço aberto das obras e entrava em um ambiente escuro, concentrado e silencioso, onde o vídeo era exibido continuamente.


A instalação não funcionava como simples projeção documental. A escuridão, o looping e a escala íntima da sala transformavam o vídeo em experiência de presença, suspensão e repetição.


Corpo, chama e imagem

No vídeo, Cinthya Verri realiza uma ação performática em torno do próprio corpo e do fogo. O registro é marcado por vermelhos, laranjas, áreas de luz intensa, granulação e instabilidade visual.

A imagem não busca nitidez. O rosto aparece e desaparece. A mão se torna ponto de tensão. A chama ilumina e, ao mesmo tempo, dissolve a figura.

Esse tratamento retira da cena qualquer aparência de registro neutro. A performance passa a existir como imagem simbólica: corpo atravessado por luz, fogo, memória e risco.


O looping como estrutura

Apresentada em looping, a ação não se organizava como narrativa linear.

Não havia começo, desenvolvimento e conclusão. O acontecimento retornava, insistia, reaparecia. Essa repetição era parte central da obra.

O fogo, nesse contexto, deixa de ser um evento localizado e passa a operar como imagem recorrente da violência histórica. A cena não se encerra porque a memória evocada pela obra também não está encerrada.


A mão como signo

A mão ocupa um lugar simbólico importante em Queimada.

Ela é parte do corpo ligada à criação, ao trabalho, ao cuidado, à escrita, ao toque e à ação. Ao aparecer em relação direta com o fogo, torna-se território de vulnerabilidade e memória.

A obra concentra sua força nessa redução: não tenta representar uma cena histórica completa, nem reconstituir a violência de modo literal. Apresenta um sinal, um fragmento, uma superfície mínima capaz de convocar uma história maior.


Mujeres ardientes

Queimada pertence ao projeto expandido Mujeres ardientes, trabalho no qual Cinthya Verri recolhe rostos de mulheres por meio de moldes de gesso.

A partir dessas matrizes, a artista produz cabeças compostas de areia e parafina. Esses rostos, inicialmente construídos a partir da presença concreta de uma mulher, são posteriormente entregues ao fogo.

O procedimento desloca o retrato do campo da preservação para o campo da perda. O gesso conserva o contato. A areia introduz instabilidade, erosão e passagem do tempo. A parafina carrega, desde o início, a possibilidade de combustão.

Cada cabeça é simultaneamente retrato, matéria frágil e ruína anunciada.


Retrato, perda e vestígio

Em Mujeres ardientes, o desaparecimento das cabeças não opera apenas como destruição material.

Quando as figuras deixam de existir fisicamente, passam a atuar como vestígio. Aquilo que se perde como forma permanece como memória, denúncia e presença residual.

O título preserva uma ambiguidade fundamental. São mulheres que ardem, mas também mulheres ardentes: intensas, insubmissas, desejantes, políticas e impossíveis de serem reduzidas ao lugar passivo de vítimas.

Queimada amplia esse campo simbólico ao inserir o corpo da artista no interior da mesma lógica de aparição, combustão, perda e permanência.


Entre literatura, história e memória

A origem conceitual do trabalho dialoga com “Un disparo al vacío”, de Rafael F. Muñoz, narrativa vinculada ao ciclo literário da Revolução Mexicana.

O conto reelabora literariamente o massacre de soldaderas carrancistas ocorrido em 12 de dezembro de 1916, em Santa Rosalía de Camargo, atual Ciudad Camargo, no estado mexicano de Chihuahua.

É importante distinguir o acontecimento histórico de sua elaboração literária. No relato de Muñoz, as mulheres que acompanhavam os soldados federais recusam-se a se submeter, e uma delas dispara contra o chefe rebelde. Esse gesto desencadeia uma cena extrema de violência coletiva. Já as reconstruções históricas apresentam versões diferentes sobre as circunstâncias e o modo de execução das vítimas.

Essa distância entre documento, testemunho, literatura e memória é parte constitutiva de Queimada.


Não ilustrar, mas convocar

A obra não pretende ilustrar literalmente o conto nem reconstituir o massacre.

Em vez de representar os corpos das mulheres assassinadas, Cinthya insere o próprio corpo no campo simbólico da obra. A ação torna-se uma superfície de passagem entre uma violência remota e sua permanência no presente.

O corpo da artista não ocupa o lugar das mulheres mortas. Ele se oferece como território contemporâneo de memória.

A performance evita a representação espetacular da violência. Em vez de mostrar o massacre, apresenta um vestígio. Em vez de reconstruir a cena histórica, produz uma imagem residual capaz de convocá-la.


O corpo como arquivo

Em Queimada, o corpo não interpreta uma personagem. Ele funciona como arquivo.

A ação estabelece uma relação entre a pele individual da artista e uma história coletiva de mulheres submetidas à violência, ao apagamento e à transformação de suas vidas em números, lendas ou personagens secundárias de narrativas heroicas.

Ao utilizar o próprio corpo, Cinthya desloca a memória histórica para o presente. O gesto não é ilustração; é inscrição. O corpo aparece como lugar onde a história pode retornar como imagem, sensação e pensamento.


A sala blackout como dispositivo

A sala blackout era parte inseparável da obra.

Sem iluminação externa, referências arquitetônicas ou elementos que disputassem a atenção, a chama tornava-se a principal fonte de luz da instalação. Era ela que revelava a mão, o rosto e, por instantes, a figura da performer. Ao mesmo tempo que iluminava, também ocultava e dissolvia a imagem.

A pequena dimensão da sala produzia proximidade. O visitante não observava o vídeo como quem contempla um documento à distância. Permanecia dentro da atmosfera criada por ele, envolvido pela escuridão e pela repetição.


Uma contraimagem da Revolução

Dentro de Adelitas, a instalação funcionava como contraponto à imagem heroica e frequentemente romantizada da soldadera mexicana.

Em lugar da mulher transformada em ornamento folclórico da Revolução, Queimada fazia aparecer aquilo que a iconografia celebratória costuma deixar fora do quadro: precariedade, anonimato, violência e desaparecimento.

A obra confrontava o mito com o vestígio.

Em vez de monumento, apresentava uma imagem precária.
Em vez de heroísmo, vulnerabilidade.
Em vez de uma narrativa concluída, repetição.
Em vez de um rosto preservado, uma presença destinada a transformar-se.


Fogo e transformação

Em Queimada, o fogo aparece como força ambígua.

Ele é ameaça, marca histórica, agente de destruição e linguagem de passagem. Aquilo que arde desaparece como forma, mas permanece como marca.

Essa ambiguidade atravessa também Mujeres ardientes. O fogo destrói a matéria, mas revela o processo. Apaga o rosto, mas torna visível o gesto de apagamento. Interrompe a forma, mas produz memória.

A obra permanece nesse ponto de tensão: entre aniquilamento e transformação, perda e inscrição, desaparecimento e presença residual.


Relação com Adelitas

Queimada integra o campo expandido de Adelitas, exposição dedicada às mulheres da Revolução Mexicana e às formas históricas de apagamento, resistência, memória e representação feminina.

Enquanto outras obras da exposição operavam por pintura, instalação, máscaras, cabeças, objetos e documentação de viagem, Queimada introduzia a presença performática do corpo em vídeo.

A instalação criava um núcleo mais escuro e concentrado dentro da exposição. Funcionava como interrupção, ferida visual e zona de memória.


Síntese do Núcleo

O núcleo Queimada — Videoperformance e Instalação preserva uma das obras performáticas mais intensas vinculadas à exposição Adelitas.

Apresentada em sala blackout, a videoperformance articula corpo, mão, chama, repetição e memória histórica. A obra pertence ao projeto Mujeres ardientes, no qual rostos de mulheres moldados em gesso são transformados em cabeças de areia e parafina, posteriormente entregues ao fogo.

Em diálogo com a literatura de Rafael F. Muñoz e com a memória das soldaderas assassinadas durante a Revolução Mexicana, Queimada não reconstitui a violência. Ela a convoca como vestígio.

O resultado é uma instalação em que o corpo se torna arquivo, o fogo se torna linguagem e a imagem repetida insiste como memória que não se encerra.

FICHA TÉCNICA


Título: Queimada
Linguagem: Videoperformance e instalação
Projeto: Mujeres ardientes
Exposição: Adelitas
Local: Memorial do Rio Grande do Sul — Porto Alegre
Dispositivo expositivo: Vídeo em looping apresentado em sala blackout
Artista: Cinthya Verri

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