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ARTE, PSICOEDUCAÇÃO, CORPO E TRANSTORNOS ALIMENTARES

Diagnóstico Diferencial é um projeto de arte e psicoeducação criado por Cinthya Verri a partir do encontro entre prática médica, produção visual e escrita poética. Dedicado aos transtornos alimentares e às distorções da imagem corporal, o trabalho articula linguagem clínica, crítica cultural e imaginação simbólica para investigar os modos pelos quais sofrimento psíquico, controle, desejo e aparência se inscrevem no corpo.

O título toma de empréstimo uma expressão da medicina. Na prática clínica, diagnóstico diferencial é o processo de distinguir condições que podem apresentar sinais semelhantes. No projeto, a expressão também se transforma em pergunta: o que estamos vendo quando olhamos para um corpo?

 

Saúde, beleza, disciplina, desempenho, autocontrole, sintoma e sofrimento podem ocupar territórios muito próximos. Nem todo adoecimento é imediatamente visível. Nem toda conduta valorizada socialmente é necessariamente saudável.

 

A série foi construída a partir de imagens inspiradas na linguagem dos cartazes publicitários, na ilustração vintage e na geometria art déco. A sedução visual não procura suavizar o tema. Ao contrário: evidencia a maneira como a cultura frequentemente transforma privação em virtude, compulsão em fraqueza moral, exercício excessivo em mérito e sofrimento em aparência admirável.

Anorexia nervosa, bulimia nervosa, bulimia punitiva, vigorexia, ortorexia, pregorexia, drunkorexia, compulsão alimentar e pica aparecem não apenas como categorias clínicas, mas como experiências atravessadas por culpa, silêncio, controle, fantasia, punição, prazer e violência.

DO VISÍVEL AO INVISÍVEL

A exposição foi organizada como um percurso entre manifestações mais reconhecidas e formas de adoecimento frequentemente disfarçadas por hábitos considerados normais, disciplinados ou desejáveis.

O corpo extremamente emagrecido ocupa um lugar evidente no imaginário coletivo dos transtornos alimentares. Outros quadros, porém, podem permanecer ocultos sob a aparência de força, saúde, maternidade responsável, alimentação perfeita, rotina esportiva ou domínio de si.

Diagnóstico Diferencial propõe deslocar o olhar da aparência para a experiência. O que define o sofrimento não é apenas a forma do corpo, mas a relação que se estabelece com a comida, com o espelho, com o exercício, com o desejo e com a própria identidade.

A SALA DE ESPERA COMO ESPAÇO EXPOSITIVO

O projeto foi concebido para ocupar a sala de espera do consultório, transformando um espaço habitualmente associado à expectativa e ao atendimento em lugar de observação, leitura e reconhecimento.

Nesse contexto, as obras não estavam separadas da experiência clínica. Eram vistas por pessoas que aguardavam uma consulta, pensavam sobre o próprio corpo ou conviviam com questões relacionadas à alimentação, à saúde e à imagem.

 

A sala de espera passava a funcionar como uma zona intermediária entre exposição, cuidado e psicoeducação. A arte não oferecia respostas diagnósticas, mas abria espaço para perguntas que nem sempre conseguem aparecer diretamente na conversa clínica.

Da sala de espera, o projeto se desloca para outros espaços de intimidade. Aplicadas sobre azulejos, as imagens passam a ocupar simbolicamente cozinhas e banheiros — ambientes em que muitos dos rituais, conflitos e silêncios ligados aos transtornos alimentares se tornam visíveis.

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AZULEJOS 

O SINTOMA NOS ESPAÇOS DO COTIDIANO

Como desdobramento de Diagnóstico Diferencial, as imagens da série foram aplicadas sobre azulejos, deslocando os cartazes do plano gráfico para um suporte diretamente ligado à arquitetura doméstica.

A escolha do azulejo não é apenas material. Cozinhas e banheiros são espaços centrais na experiência dos transtornos alimentares: lugares de preparo, ingestão, controle, ocultamento, repetição, espelho e vigilância do corpo. Neles, o sofrimento pode adquirir uma dimensão concreta e cotidiana, muitas vezes invisível para quem observa de fora.

Na cozinha, a relação com o alimento se organiza entre presença, recusa, excesso, ritual e culpa. No banheiro, o corpo retorna como imagem, medida, secreção, limpeza e tentativa de apagamento. São ambientes nos quais o transtorno pode se tornar gesto, rotina e segredo.

Ao transferir as imagens para os azulejos, o projeto aproxima o diagnóstico dos lugares em que ele frequentemente se manifesta. A obra deixa de ser apenas representação e passa a ocupar simbolicamente a própria superfície desses espaços.

O azulejo também introduz uma tensão entre permanência e desgaste. Sua aparência resistente e lavável contrasta com as fissuras, riscos, manchas e marcas acumuladas pelas peças. A superfície pode ser limpa, mas não permanece intacta. O mesmo vale para as imagens: por trás de sua construção sedutora, persistem sinais de conflito, repetição e desgaste psíquico.

Reunidos em conjuntos, os azulejos formam uma espécie de inventário doméstico dos transtornos alimentares. Anorexia, bulimia, vigorexia, ortorexia, pica, compulsão alimentar e outras formas de adoecimento aparecem como placas, ícones e advertências instaladas no território comum da casa.

Mais do que decorar esses ambientes, os azulejos os interrogam. O que acontece à mesa? O que se repete diante do espelho? O que é escondido, apagado ou normalizado entre a cozinha e o banheiro?

Nesse suporte, Diagnóstico Diferencial torna visível aquilo que muitas vezes permanece confinado à intimidade.

POEMAS PARA LEVAR

Como desdobramento da exposição, as imagens e os poemas foram transformados em pequenos ímãs de geladeira.

Cada peça reunia uma miniatura do cartaz, o nome do transtorno, um poema e o desenho de um garfo, motivo gráfico recorrente do projeto. Os ímãs eram guardados individualmente em envelopes de papel translúcido e dispostos em uma caixa preta na sala de espera.

As pessoas podiam observar o conjunto e escolher livremente qual peça desejavam levar para casa.

O gesto de escolha fazia parte da obra. O ímã não era entregue como orientação, prêmio ou prescrição. Cada pessoa se aproximava da imagem ou do poema que, por alguma razão, produzia identificação, estranhamento ou desejo de continuidade.

Ao deixar o consultório, o trabalho passava da parede para a mão e da mão para o espaço doméstico. Instalado na geladeira — objeto diretamente ligado à alimentação e à vida cotidiana — o poema permanecia presente em um lugar de repetição, memória e intimidade.

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O GARFO COMO SIGNO

O desenho do garfo atravessa os poemas e os materiais gráficos de Diagnóstico Diferencial.

Objeto cotidiano, instrumento da alimentação e extensão da mão, ele aparece deslocado de sua função habitual. Torna-se emblema, testemunha e espécie de instrumento clínico imaginário.

Em algumas peças, o garfo se aproxima visualmente de um objeto técnico ou cirúrgico. Essa ambiguidade aproxima alimento, corpo e diagnóstico, sintetizando o território no qual o projeto se constrói: entre aquilo que nutre, aquilo que fere e aquilo que procura compreender.

ÁLBUM EM PROCESSO

Paralelamente aos pôsteres e aos ímãs, Cinthya Verri iniciou a elaboração de um álbum de imagens, poemas e estudos gráficos destinado à sala de espera.

Concebido como uma extensão física da exposição, o álbum permite uma leitura mais lenta e próxima. As páginas reúnem variações dos cartazes, composições tipográficas, matrizes, estudos de impressão e elementos visuais desenvolvidos ao longo do processo.

Ainda em construção, o álbum não é apresentado como registro finalizado, mas como parte viva do trabalho. Suas páginas revelam testes, sobreposições, escolhas de materiais e caminhos que permaneceram abertos.

A condição inacabada não diminui sua importância. Ao contrário, evidencia que Diagnóstico Diferencial não se encerrou em uma única montagem: continua se transformando em objeto editorial, arquivo e campo de investigação.

SIGNOS DO SINTOMA

Durante a criação do álbum, surgiram figuras geometrizadas associadas aos diferentes transtornos.

 

Animais, formas híbridas e emblemas foram tratados como uma espécie de sistema arquetípico. Essas imagens não pretendem representar literalmente um diagnóstico nem estabelecer símbolos universais. Funcionam como condensações poéticas das forças presentes em cada experiência: fome, contenção, voracidade, vigilância, potência, medo, punição, repetição e perda de controle.

Construídos por linhas, recortes e massas gráficas, esses signos aproximam a linguagem art déco de uma iconografia quase totêmica. Cada figura cria uma presença autônoma e amplia o transtorno para além de sua definição clínica.

O diagnóstico deixa de ser apenas palavra. Torna-se imagem, criatura, emblema e campo de tensão.

ENTRE ARTE, MEDICINA E POESIA

Diagnóstico Diferencial não procura ilustrar doenças nem reduzir experiências complexas a uma imagem única.

O projeto investiga o modo como os transtornos alimentares são vistos, ocultados e interpretados socialmente. Questiona a cultura que celebra o controle absoluto, associa magreza a valor moral, transforma músculos em prova de mérito e trata a alimentação como território permanente de culpa e vigilância.

Ao aproximar medicina, artes visuais e poesia, o trabalho restitui ambiguidade a experiências frequentemente reduzidas a números, aparências ou comportamentos.

A nomeação clínica é necessária, mas não suficiente. Por trás de cada diagnóstico existe uma relação singular com o corpo, com o alimento, com o desejo e com o olhar do outro.

Entre cartazes, poemas, ímãs e páginas ainda em construção, Diagnóstico Diferencial propõe uma forma de cuidado que começa pelo olhar: reconhecer o que se esconde sob imagens aparentemente familiares e criar linguagem para aquilo que muitas vezes permanece em silêncio.

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FICHA RESUMIDA

Diagnóstico Diferencial
Projeto de arte e psicoeducação sobre transtornos alimentares

Concepção, pesquisa, direção artística, imagens e poemas: Cinthya Verri

Linguagens: arte visual, poesia, design gráfico, azulejaria, objeto participativo e projeto editorial.


Desdobramentos: série de pôsteres, instalação em sala de espera, imagens aplicadas em azulejos, ímãs com poemas, álbum em processo e sistema de animais-signos.

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