
DESEJO, AUTONOMIA E CRIAÇÃO DE SI
Lembrança de Criar o que é Bom para Mim é uma obra de Cinthya Verri construída a partir da forma popular das fitinhas do Senhor do Bonfim. Mantendo o objeto reconhecível, suas cores intensas e sua possibilidade de circulação, a artista modifica a frase tradicionalmente associada ao pedido e à promessa.
Em vez de entregar a realização de um desejo a uma força exterior, a inscrição desloca o gesto para quem recebe a fita:
LEMBRANÇA DE CRIAR O QUE É BOM PARA MIM
A mudança é pequena na forma e profunda no sentido. O desejo deixa de ser apenas aquilo que se pede e passa a envolver aquilo que se reconhece, escolhe, constrói e sustenta.


DO PEDIDO À AUTORIA
As fitinhas do Senhor do Bonfim estão ligadas a uma tradição de fé, promessa e espera. São amarradas ao corpo enquanto se formulam desejos, confiados ao tempo e à intervenção do sagrado.
A obra preserva a memória afetiva desse ritual, mas subverte sua direção.
Aquilo que seria pedido a uma entidade externa retorna para a pessoa que lê a frase. A fita não oferece uma promessa de realização. Ela propõe uma lembrança: há uma parte do que consideramos bom que precisa ser criada por nossas escolhas, nossos gestos, nossos limites e nossas relações.
Não se trata de afirmar que todas as circunstâncias dependem do indivíduo, nem de converter sofrimento em culpa pessoal. A obra devolve a cada pessoa uma parcela possível de autoria sobre a própria vida.

LEMBRANÇA
A palavra lembrança carrega dois sentidos simultâneos.
É o pequeno objeto que se guarda ou se oferece a alguém: uma recordação, uma presença material, algo que circula de mão em mão.
Mas é também uma advertência íntima contra o esquecimento.
Lembrar de criar o que é bom para si significa não abandonar completamente à espera, ao costume ou à vontade dos outros a tarefa de construir uma vida possível.
A frase não determina o que é bom. Ela mantém a pergunta aberta:
O que é bom para mim?
O que precisa ser criado, em vez de apenas esperado?
O que desejo conservar, transformar ou interromper?

O CORAÇÃO COMO CORPO
Na instalação, as fitas aparecem reunidas em torno de um grande coração vermelho confeccionado em crochê.
O coração introduz na obra a materialidade do afeto e do trabalho manual. Não é uma figura abstrata ou perfeitamente regular: é uma superfície construída ponto a ponto, formada pela repetição, pelo tempo e pelo gesto.
Sobre ele, as fitas se acumulam, atravessam, pendem e se desprendem.
O coração torna-se corpo, suporte e arquivo. Recebe as frases, conserva seus fragmentos e sustenta a multiplicidade de cores. Aquilo que cada pessoa deve criar para si não aparece isoladamente, mas reunido a uma trama coletiva de desejos, decisões e experiências.

O CABIDE E O CORPO AUSENTE
O conjunto é sustentado por um cabide — objeto cotidiano associado à roupa, ao corpo e à vida doméstica.
Sem uma figura humana presente, o cabide sugere um corpo possível. A obra pode ser carregada, pendurada, deslocada e novamente instalada. Sua estrutura permanece provisória e circulante.
O coração não aparece fixado a um pedestal ou protegido por uma vitrine. Ele ocupa o espaço como algo íntimo, artesanal e transportável.
Essa condição aproxima a obra da própria fitinha: um objeto pequeno, popular e destinado a acompanhar alguém.


COR, REPETIÇÃO E CIRCULAÇÃO
As fitas são produzidas em cores diversas — vermelho, rosa, azul, verde, amarelo, laranja, lilás e branco — e recebem repetidamente a mesma inscrição.
A variedade cromática preserva a aparência festiva e popular das fitinhas tradicionais. Entretanto, a repetição da frase produz outra espécie de ritual.
Cada fita contém a mesma proposição, mas seu sentido se modifica conforme a pessoa que a recebe. “O que é bom para mim” não pode ser definido de maneira universal. A frase precisa ser apropriada, interpretada e situada em cada vida.
Quando a fita é retirada do conjunto, amarrada, guardada ou oferecida, a obra continua a existir fora de seu suporte inicial.
Ela se distribui.

UMA PROPOSIÇÃO, NÃO UMA PROMESSA
Lembrança de Criar o que é Bom para Mim não é uma afirmação de pensamento positivo. Também não promete que o desejo será suficiente para transformar a realidade.
A obra relaciona desejo e ação.
Entre pedir e receber, ela insere o verbo criar.
Criar pode significar iniciar, escolher, recusar, proteger, abandonar, aprender, reorganizar ou tornar possível. Pode ser um gesto íntimo ou coletivo. Pode começar em uma transformação mínima.
A fitinha não apresenta uma resposta. Ela acompanha uma pergunta:
Que parte daquilo que considero bom posso começar a criar?

FICHA DA OBRA
Título: Lembrança de Criar o que é Bom para Mim
Artista: Cinthya Verri
Linguagem: objeto-instalação, proposição e ação participativa
Materiais: fitas de cetim impressas, crochê, cabide de madeira e metal
Dimensões: variáveis
Apresentação: instalação, distribuição individual e circulação das fitas
