Mujeres Ardientes — Performance Processual e Instalação
Registros de uma trajetória em cena, entre teatro, música, performance, personagem, palavra falada, imagem e corpo.

Mujeres Ardientes, performance processual e instalação de Cinthya Verri criada no contexto de Adelitas, a partir da moldagem de rostos de mulheres voluntárias e da construção de cabeças de areia e parafina destinadas a um memorial instável das soldaderas da Revolução Mexicana.
Mujeres Ardientes é uma performance processual de Cinthya Verri, criada no interior de Adelitas, projeto dedicado às mulheres que participaram da Revolução Mexicana e foram, em grande parte, apagadas de sua narrativa oficial.
A obra nasce da necessidade de devolver rosto, escala e presença simbólica às soldaderas: mulheres que acompanharam os deslocamentos revolucionários, garantiram a sobrevivência cotidiana das tropas, cuidaram de feridos e crianças, transportaram alimentos e, em muitos casos, também participaram diretamente do conflito.
A partir de moldes realizados com mulheres voluntárias, Cinthya criou cabeças de areia e parafina, pintadas de azul e envolvidas por tela de galinheiro, destinadas a compor uma estrutura inspirada no tzompantli. O trabalho articula performance, escultura, instalação, fotografia, vídeo e arte sonora para pensar memória, violência histórica, apagamento e resistência.
![]() | ![]() | ![]() |
|---|---|---|
![]() | ![]() | ![]() |
![]() | ![]() | ![]() |
![]() | ![]() | ![]() |
PERFORMANCE PROCESSUAL
Mujeres Ardientes é uma performance processual e instalação criada por Cinthya Verri no interior de Adelitas, projeto dedicado às mulheres da Revolução Mexicana.
A obra nasce de uma pergunta sobre escala, memória e apagamento: como tornar sensível a dimensão de uma violência histórica quando suas vítimas foram reduzidas a números, lendas ou presenças anônimas?
Em vez de representar diretamente as soldaderas, Cinthya constrói um processo. Moldar, secar, preencher, pintar, envolver, reunir, queimar, registrar e escutar tornam-se etapas de uma mesma ação: fazer aparecer aquilo que a história tentou deixar fora do campo de visão.
As soldaderas
As soldaderas participaram da Revolução Mexicana em múltiplas funções.
Foram companheiras, cozinheiras, comerciantes, enfermeiras, mães, cuidadoras, combatentes, prisioneiras e vítimas de violência. Caminharam junto às tropas, alimentaram soldados, transportaram água, utensílios e mantimentos, cuidaram dos feridos e sustentaram parte essencial da vida cotidiana nos deslocamentos da guerra.
Apesar disso, poucas receberam reconhecimento individual. Algumas permaneceram na memória por nomes ou apelidos. A maioria tornou-se presença anônima nas fotografias, nas canções e nos relatos da Revolução.
Mujeres Ardientes parte dessa ausência para criar uma obra de presença.
Mulheres que mantiveram a Revolução viva
A iconografia da Revolução Mexicana construiu imagens muito distintas da soldadera.
No cinema e na cultura popular, ela muitas vezes aparece como figura espetacular: armada, altiva, indomável. Nas fotografias históricas, porém, surge também como mulher exausta, carregando crianças, panelas, água, mantimentos e objetos de sobrevivência.
Essas imagens revelam algo decisivo: sem as soldaderas, a Revolução talvez não pudesse ter se deslocado, se alimentado ou continuado existindo.
Ainda assim, os monumentos, os títulos e as honrarias foram reservados principalmente aos homens.
Um acontecimento apagado
A origem conceitual de Mujeres Ardientes está relacionada ao massacre de soldaderas ocorrido em dezembro de 1916, em Santa Rosalía de Camargo, no estado mexicano de Chihuahua.
O episódio aparece em registros históricos e também em elaborações literárias, entre elas o relato “Un disparo al vacío”, de Rafael F. Muñoz. As versões divergem em detalhes, mas convergem na descrição de uma violência extrema cometida contra mulheres que acompanhavam forças carrancistas.
A obra não procura reconstruir literalmente o acontecimento. Parte dele para interrogar o apagamento histórico e a dificuldade de dimensionar uma violência quando suas vítimas são transformadas apenas em número.
A pergunta inicial da performance é simples e incontornável:
Que tamanho teria uma pira formada por sessenta mulheres?
Sessenta rostos
Para responder a essa pergunta por meio da matéria, Cinthya iniciou a construção de sessenta cabeças femininas.
Mulheres voluntárias participaram do trabalho oferecendo o próprio rosto para a realização de moldes com bandas gessadas. Durante alguns minutos, cada participante permanecia imóvel enquanto sua face era coberta e registrada.
O procedimento não produz um retrato convencional. O rosto não é fotografado nem desenhado: é tocado, envolvido e convertido em matriz.
Cada molde preserva uma presença real. As vítimas deixam de ser massa abstrata e passam a ser evocadas por individualidades contemporâneas.
As participantes não representam diretamente as mulheres assassinadas em Camargo. Seus rostos funcionam como pontos de passagem entre tempos diferentes.
Da impressão do rosto à cabeça
Depois de retirados, os moldes são deixados para secar à sombra. Em seguida, recebem preparação com tinta acrílica e material desmoldante.
Dentro de cada matriz é aplicada uma mistura de parafina e areia, da qual emerge uma cabeça singular.
A escolha desses materiais estrutura o sentido da obra. A areia remete ao território, ao deslocamento, à erosão e àquilo que escapa das mãos. A parafina guarda a memória do fogo e contém, desde o princípio, a possibilidade de deformação.
As cabeças são esculturas destinadas à transformação. Não foram concebidas para permanecer intactas, mas para atravessar uma ação.
Areia e parafina
A areia e a parafina criam uma tensão entre forma e instabilidade.
A areia é matéria dispersa, formada por incontáveis partículas. Ela evoca território, travessia, desgaste e memória fragmentária. A parafina, por sua vez, é matéria de combustão, capaz de sustentar uma forma e também de perdê-la.
Cada cabeça reúne essas duas forças: a tentativa de fixar um rosto e a certeza de que esse rosto é frágil.
A escultura nasce como presença e como ruína anunciada.
O azul
Depois de retiradas dos moldes, as cabeças recebem uma cobertura de tinta acrílica azul.
A camada ajuda a controlar e tornar mais homogêneo o processo de deformação provocado pelo calor, mas sua função não é apenas técnica. O azul estabelece uma relação simbólica com rituais mesoamericanos e com a cor atribuída, em determinados contextos, aos corpos destinados ao sacrifício.
A coloração retira das esculturas a aparência naturalista. Não se trata de imitar pele humana, mas de criar um conjunto ritual.
Ao serem pintados da mesma cor, os rostos formam uma coletividade. Ao mesmo tempo, as diferenças produzidas por cada molde impedem que se tornem idênticos.
São parte de uma multidão, mas continuam sendo indivíduos.
A tela de galinheiro
Cada cabeça é colocada sobre uma base de madeira e envolvida por tela de galinheiro.
O material remete aos relatos de mulheres que procuravam esconder-se em galinheiros para escapar de sequestros, abusos e formas de escravização durante os conflitos revolucionários.
Na obra, a tela produz uma contradição. Pode ser proteção, mas também cárcere. Envolve o rosto sem impedir que ele seja visto e cria uma barreira incapaz de garantir segurança.
A estrutura transforma cada cabeça em corpo simultaneamente preservado e aprisionado.
O altar
As sessenta esculturas foram concebidas para ocupar uma estrutura inspirada no tzompantli, altar ou armação utilizada por diferentes povos mesoamericanos para a disposição pública de crânios.
Cinthya desloca essa forma histórica para construir um memorial de mulheres.
No lugar de troféus de guerra, aparecem rostos oferecidos por participantes contemporâneas. No lugar da celebração da conquista, a obra produz uma acusação contra a violência e contra o apagamento de suas vítimas.
A escala é fundamental. Uma única cabeça pode ser contemplada como escultura. Sessenta cabeças obrigam o olhar a reconhecer a dimensão coletiva do acontecimento.
Aquilo que poderia permanecer reduzido a uma frase em um livro torna-se presença espacial.
O fogo como passagem
A etapa culminante de Mujeres Ardientes foi concebida como uma ação de queima das sessenta cabeças instaladas no altar.
O fogo não aparece como efeito visual nem como simples agente de destruição. Ele reativa a memória do massacre e modifica as formas diante do público e da câmera.
Ao serem submetidos ao calor, os rostos perdem gradualmente sua estabilidade. A parafina cede, a areia se desprende e as fisionomias deixam de ser plenamente reconhecíveis. A obra transforma o desaparecimento em experiência de duração.
A matéria desaparece, mas sua transformação permanece como registro, memória e vestígio.
Relação com Queimada
Essa relação entre presença e perda também aparece em Queimada, videoperformance apresentada em uma sala blackout durante a exposição Adelitas.
Em Queimada, a artista aproxima o próprio corpo da imagem do fogo. Em Mujeres Ardientes, o gesto se expande: do corpo individual para sessenta rostos; da imagem para a instalação; do sinal para a escala coletiva.
As duas obras se comunicam como partes de um mesmo campo simbólico: corpo, fogo, violência histórica, memória e transformação.
As vozes
Durante a ação, seriam reproduzidos áudios gravados pelas mulheres que participaram da moldagem.
A presença sonora impede que as esculturas permaneçam mudas.
Os rostos podem deformar-se, mas as vozes continuam ocupando o espaço. A obra contrapõe, assim, duas forças: o fogo que desorganiza a forma e a palavra que resiste ao desaparecimento.
As voluntárias não oferecem apenas sua aparência. Oferecem respiração, timbre, ritmo e linguagem.
Aquelas que a história transformou em número retornam como multiplicidade de vozes.
Mulheres que ardem
O título Mujeres Ardientes contém uma duplicidade decisiva.
São mulheres atingidas pelo fogo e pela violência histórica. Mas são também mulheres ardentes: intensas, vivas, insubmissas e capazes de transformar sua própria presença em ação política.
A obra não fixa as soldaderas no lugar exclusivo de vítimas. Reconhece sua vulnerabilidade sem eliminar sua resistência.
Ao recolher rostos de mulheres contemporâneas e reuni-los em um memorial instável, Cinthya Verri cria uma ponte entre corpos que existiram, corpos que foram apagados e corpos que agora decidem participar da construção de sua memória.
Monumento em processo
Mujeres Ardientes transforma o monumento em processo.
Não há apenas objeto final. Há encontros, moldagens, espera, secagem, preparação, pintura, montagem, voz, fogo e registro.
Cada etapa importa porque cada etapa desloca a memória do campo abstrato para o campo material.
O trabalho não propõe uma imagem definitiva das soldaderas. Propõe uma ação de convocação: fazer com que a ausência ganhe rosto, escala, corpo, cor, som e presença.
Relação com Adelitas
Dentro de Adelitas, Mujeres Ardientes amplia o campo da exposição.
Se Adelitas investiga as mulheres da Revolução Mexicana por meio de pintura, instalação, vídeo, viagem, performance e memória latino-americana, Mujeres Ardientes aprofunda essa investigação no campo do processo, do corpo e da participação.
A obra constrói um memorial que não se limita a representar mulheres do passado. Ela envolve mulheres do presente na criação de uma presença coletiva.
Dessa forma, a memória histórica deixa de ser apenas tema e se torna prática.
Síntese do Núcleo
O núcleo Mujeres Ardientes — Performance Processual e Instalação preserva um dos eixos mais intensos do projeto Adelitas.
A obra parte da memória das soldaderas da Revolução Mexicana e da violência cometida contra mulheres em Santa Rosalía de Camargo para construir um memorial instável: sessenta cabeças femininas produzidas a partir de moldes de mulheres voluntárias, feitas de areia e parafina, pintadas de azul, envolvidas por tela de galinheiro e destinadas a uma estrutura inspirada no tzompantli.
Ao articular corpo, rosto, matéria, fogo, voz e memória, Cinthya Verri transforma o apagamento histórico em presença processual.
Mujeres Ardientes não busca encerrar a história. Busca fazê-la retornar como pergunta, imagem, matéria e escuta.
Título: Mujeres Ardientes
Linguagens: Performance processual, escultura, instalação, fotografia, vídeo e arte sonora
Projeto: Adelitas
Artista: Cinthya Verri
Materiais: Bandas gessadas, parafina, areia, tinta acrílica, madeira e tela de galinheiro
Estrutura: Sessenta cabeças femininas em altar inspirado no tzompantli
Participação: Mulheres voluntárias para moldagem dos rostos e gravação de vozes
Eixos conceituais: Soldaderas, apagamento histórico, memória, corpo, violência, resistência e ritual












