March 3, 2018

February 2, 2018

January 2, 2018

December 28, 2017

Please reload

Posts Recentes

CINTHYA VERRI ENTRA NOS EIXOS

March 14, 2018

1/5
Please reload

Posts Em Destaque

BABY DOLL

September 22, 2017

Aos quatro anos, ganhei uma boneca da própria altura. Xuxa existia para mim, uma amiga imaginária como todos os outros ursos, cachorrinhos e Barbies  — agora já tão desinteressantes perto da gigante. Sentava-me para comer com ela, vestia e penteava a companheira.​​

 

Não se cansava de mim, não se queixava. Ela me servia e parecia sorrir. Eu a amava por isso. Entendi que ela dependia de mim. Eu a amava por isso.

 

Eu também queria ser amada, mesmo que fosse por isso.

 

 

Quando a notícia das bonecas de silicone japonesas surgiu, mexeu com o imaginário de todos. É fácil colocar-se no lugar de homens adultos que ainda vivenciam o fantástico da infância. Fazer-de-conta é nosso segundo cérebro, veio antes que pudéssemos entender que “água mole em pedra dura” não falava do mar.

 

A inteligência abstrata nos é fornecida pelo amadurecimento dos neurônios, mais precisamente do córtex pré-frontal.  Só na adolescência é que começamos a desenvolver o entendimento e o comportamento autorreflexivo.

 

São as influências culturais junto com a genética que nos permitem ir além e nos comunicarmos com a subjetividade. Perceber camadas e se encantar com elas é uma habilidade mental fina, especial e capaz da produção de muito prazer e vivacidade cerebral. É a inteligência que permite sabor ao invés de saber, como diria Roland Barthes.

 

A arte é a cereja do bolo. Nosso incrível potencial de ternura através do estímulo da sensibilidade humana. Com nossos sentidos, comunicamos um para o outro uma expressão, uma figura que, através da empatia, é capaz de provocar uma aproximação. Arte é chegar um dentro do outro.

 

Arte é quando chego dentro de mim.

 

Tento não ser uma boneca. Não é fácil. Torno-me Xuxa do outro com dolorosa facilidade — obedeço sem saber. Arte também é resistência. Tento ser livre. Tento lembrar que quero me submeter para um dia dominar. Eu me desvio. Eu me traio. Depois, retomo.

 

Faço outras bonecas. Pinto as rendições. Quero vê-las bonitas e concretas. Quero vê-las fora, quero enxergá-las para saber reconhecer seus vultos. Quero não satisfazer. Quero desagradar também. Quero ser amada também por isso.

 

Mesmo que não veja, às vezes é. Toda mulher pode ser uma boneca.

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Siga